Como desenvolver o pensamento matemático desde a primeira infância?

Muito antes de realizar registros formais para somar ou subtrair, uma criança já mobiliza ideias e relações matemáticas em diferentes situações do cotidiano: quando compara dois lanches para saber qual porção é maior, quando organiza os brinquedos por cor ou tamanho, quando percebe que faltam peças para completar um jogo. Essas experiências, ainda que informais, contribuem para a construção de conhecimentos matemáticos que serão ampliados e sistematizados ao longo dos anos escolares. 

Antes do cálculo, as noções

Trabalhar matemática na Educação Infantil não significa antecipar conteúdos do Ensino Fundamental, como cálculos. Significa criar situações em que a criança compare, agrupe, ordene e estabeleça relações entre objetos e quantidades, sempre a partir de contextos concretos e do brincar.

Uma roda com pratinhos para distribuir entre os colegas, um jogo de encaixar peças por tamanho, uma brincadeira de contar quantos passos até a porta: tudo isso mobiliza pensamento matemático, mesmo sem número escrito envolvido.

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Os processos mentais por trás do pensamento matemático

Diferentes estudos relacionados à Educação Matemática na infância destacam a importância de processos envolvidos no desenvolvimento do pensamento matemático, como comparar, classificar, ordenar, sequenciar, estabelecer correspondências, reconhecer relações de inclusão e compreender a conservação de quantidades. 

  • Comparar é perceber diferenças e semelhanças entre dois elementos, como qual pilha de blocos é mais alta. 
  • Classificar é agrupar objetos por uma característica em comum, como cor ou formato. 
  • Ordenar é organizar elementos de acordo com um critério sequencial crescente ou decrescente. 
  • Sequenciar é organizar elementos, acontecimentos ou ações de acordo com uma ordem temporal ou lógica, reconhecendo a posição de cada um na sequência.
  • Estabelecer correspondências é relacionar um elemento de um grupo a um elemento de outro grupo, como distribuir um prato para cada criança da mesa.
  • Reconhecer relações de inclusão é perceber que um grupo pode fazer parte de um grupo mais amplo. Por exemplo, o grupo dos “gatos” faz parte do conjunto dos “animais”.
  • Compreender a conservação de quantidades é perceber que uma quantidade permanece a mesma, mesmo quando sua disposição, forma ou aparência é modificada.

Esses processos não exigem uma ordem rígida ou nem exigem materiais sofisticados. Na verdade, eles são desenvolvidos gradualmente pelas crianças à medida que exploram, observam, estabelecem relações e buscam soluções para situações presentes em seu cotidiano. Podem ser mobilizados tanto em situações espontâneas quanto em propostas intencionalmente planejadas pelo professor, contribuindo para a construção de conhecimentos matemáticos desde os primeiros anos. 

Um relatório analítico produzido para subsidiar a própria BNCC reforça que o currículo de matemática na Educação Infantil precisa garantir a construção de noções como proximidade, ordem e quantidade a partir de contextos do mundo real, ampliando progressivamente essas noções junto às crianças, em vez de partir direto para o registro formal do número.

A BNCC organiza parte dessas experiências no campo “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”, que trata justamente da curiosidade sobre o mundo físico, sobre quantidades e sobre as relações entre os elementos que cercam a turma. Nesse contexto, as experiências matemáticas não se restringem aos números: também envolvem relações espaciais, formas, medidas, sequências, padrões, localização, deslocamento e transformações.

Dicas de atividades para diferentes idades

Para crianças de até 3 anos, o contato com brincadeiras, objetos e situações do dia a dia pode proporcionar experiências importantes para o desenvolvimento do pensamento matemático. Encaixar blocos com formas diferentes e identificar o que vem antes e depois na rotina ou em uma história são exemplos de situações que favorecem a construção de noções matemáticas de maneira significativa e adequada à essa faixa etária.

Já para a faixa de 4 e 5 anos, uma proposta simples de trabalhar esses processos é reunir uma coleção de objetos do cotidiano, como prendedores de roupa ou blocos de montar, e conduzir a turma por três etapas:

  1. pedir que separem os objetos por uma característica escolhida por eles, como cor ou formato;
  2. em seguida, pedir que organizem cada grupo do menor para o maior, ou do mais claro para o mais escuro;
  3. por fim, propor que comparem dois grupos e digam qual tem mais elementos. Inicialmente, podem levantar hipóteses por observação e, depois, verificar suas hipóteses contando os elementos de cada grupo. 

A conversa que acontece durante a atividade importa tanto quanto o resultado final. Perguntas como “por que você separou assim?” ou “como você sabe que esse grupo tem mais?” ajudam a tornar visível o raciocínio que está sendo construído.

Para crianças que ainda não verbalizam com facilidade, a mesma atividade funciona bem com apoio de gestos, apontamentos ou cartões visuais, sem prejuízo do raciocínio matemático envolvido. O que importa observar não é a rapidez da resposta, e sim se a criança consegue estabelecer alguma relação entre os grupos, mesmo que de forma não verbal.

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O papel do livro didático na Educação Infantil

O livro didático, quando bem construído, não substitui o brincar, a exploração e as experiências concretas da Educação Infantil. Seu papel é contribuir para ampliar e organizar essas experiências, propondo situações adequadas  à faixa etária e coerentes com os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento.

A Sintonia Educação oferece recursos para apoiar professoras nesse momento inicial da matemática, com propostas que já nascem alinhadas à BNCC e articuladas às experiências e brincadeiras próprias da Educação Infantil. Isso inclui orientações de planejamento e desenvolvimento docente, ajudando a transformar situações simples do cotidiano da turma em oportunidades intencionais de aprendizagem matemática.

O material complementar No Mundo dos Números, por exemplo, é alinhado à BNCC e reúne atividades diversificadas para apoiar esse início do processo de desenvolvimento do pensamento matemático, sempre a partir de propostas lúdicas adequadas às crianças.

Isso é diferente de antecipar o Ensino Fundamental por meio de folhas de exercícios repetitivos, com fileiras de números para copiar ou cálculos para memorizar sem contexto. Um bom material para essa faixa etária propõe situações em que a criança manipula, compara e conversa sobre o que está fazendo, ampliando gradualmente suas formas de representar e registrar o que percebe.

Matemática também se aprende brincando

Antes de qualquer cálculo formal, o que sustenta a aprendizagem matemática é a oportunidade de comparar, organizar e perceber relações entre quantidades no dia a dia. Um livro didático bem construído apoia esse processo, mas o ponto de partida continua sendo o mesmo de sempre: o brincar e a observação atenta do que já está ao redor da turma.

As experiências construídas na Educação Infantil continuam contribuindo para aprendizagens posteriores, à medida que as crianças passam a lidar com representações e conceitos matemáticos cada vez mais elaborados. 

Ter oportunidades de comparar, classificar, ordenar, estabelecer correspondências, contar, explorar formas, medidas e relações espaciais contribui para que atribuam significados aos conceitos matemáticos, indo além da simples memorização de números e procedimentos.

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